11 de abril de 2014

Esquecer

Me disseram que eu tinha que te esquecer.

Que bobagem.

Como se eu tivesse um interruptor no cérebro, identificado com uma etiquetinha com o teu nome escrito, e bastasse um toque pra esquecer tudo o que aconteceu.

Esquecer seria fácil demais, e não teria graça nenhuma. Eu não teria pensado e ponderado tanto antes de te beijar pela primeira vez se eu quisesse esquecer isso depois.

Não vou te esquecer, não quero.

Falam em superar. Tu precisas superar, passar por cima dessa história. Ah, e como se faz isso? Não sejamos ridículos. Não há o que fazer. A gente aceita que perdeu, para de correr atrás, entende que nada mais vai ser como antes. E no outro dia acorda pensando no filho da puta.

Desculpa te chamar assim, é só força de expressão.

E eu gostava de ti, porra. Ainda gosto, talvez. Tem como desgostar? Sei lá.

O fato é que não tem como esquecer. Não esqueci dos outros também. Ainda lembro de todos, pelo menos foram poucos.

O negócio é seguir a vida. Fingir. Bloquear tuas atualizações no facebook, pra depois descobrir que a tua lembrança não estava no face, estava em mim. Fingir que eu nem lembro mais em que pasta do computador estão as nossas fotos. Fingir desinteresse quando me falam de ti.

E vida que segue.

Outro conselho recorrente é que eu tenho que sair. Tu tens que ir numa festa, conhecer gente nova. Quem disse? Engraçado como as pessoas sempre tem uma fórmula mágica pra resolver os problemas da gente, inclusive quando a gente nem pediu conselho. Nunca vi resolverem problema com trepada. Aliás, trepar já é ótimo, faz bem pra saúde, não precisa servir pra mais nada.

Mas quando eu falo de ti pros outros, me acusam de ainda não ter te esquecido.

Não vou te esquecer, não quero.

Eu hein.

26 de março de 2014

Conto erótico


Não satisfeito em ser bonito, também se veste bem. Quanto bom gosto nessas roupas! Deve ser da irmandade (quem ainda fala em irmandade? Onde nós estamos, na escolinha do professor Raimundo?). Um hetero não se vestiria tão bem. Bom, com esses novos tempos, vai ver seja metrossexual... Mas aquele estilo de calça é ousado demais, e, além do mais, o jeito dele entrega. Meu gaydar nunca foi dos melhores, mas aquele ali curte, certo.
Que decisão acertada essa de vir sozinho ao shopping em plena quarta-feira. Bela recompensa essa visão depois de um dia de trabalho.
E esse cabelo impecável? Invejinha de quem tem cabelo tão bom, que nem precisa fazer muito e já se ajeita. Esse parece o tipo que já acorda com o cabelo lindo. E que corpo, também. Um porte atlético, uma postura, uma maneira de se portar que... Meu deus, ele olhou pra cá! Vira, rápido, finge que não tá olhando. Pega uma peça de roupa, isso. Não uma blusa feminina! Larga isso, larga!
Olhou pra lá. Acho que não notou que eu estava olhando. Ai, que tensão. Essa música no fone de ouvido me distrai. Mas ele é tão lindo! O que será que ele faz? No shopping em plena quarta-feira, será que é sustentado pelos pais? Não, ele tem cara de sério, responsável, e está comprando camisas e gravatas. Tem cara de quem trabalha no escritório de uma grande empresa, num arranha céu de vidro com uma vista linda. Será que é de outra cidade? Pode estar aqui a trabalho. Ah, um jovem empreendedor, quem sabe? Um homem de negócios, bem sucedido, rico! Bom partido, além de tudo. É a sorte sorrindo pra mim, colocando esse semideus no meu caminho. Podemos morar juntos, comprar uma apê sofisticado num prédio legal, ter um pug e um Citroën C3. Casar nem precisa, coisa mais antiga, podemos ser um casal moderno... mas casar nem é má ideia. A cerimônia ia ser tão linda, uma grande festa e nós dois deslumbrantes no altar, vestindo ternos iguais. Ai, ai.
Ó, está virando pra cá de novo. Dessa vez vou olhar, pra ele saber que estou aqui. Quem não é visto não é lembrado. Não posso fazer uma cara de deslumbrado pela beleza inebriante dele, senão vou parecer um babaca. Um olhar, meio de relance, será suficiente. Vai ser assim: corro os olhos pelo ambiente, fixo o olhar nele por uns instantes, acidentalmente na mesma hora em que ele estiver olhando pra mim, como se só então o tivesse notado, e depois olho pra outro lado. Isso, boa ideia. Ele está girando a cabeça, hora de pôr em prática o plano infalível. Olhar perdido pela loja, passa por ele, fixa nele... ótimo, ele está olhando pra cá. Meu deus como é bonito o desgraçado. Pronto, já chega, desvia o olhar, isso.
Me fiz notar. Agora ele sabe que eu existo, que eu estou aqui, que eu sei que ele existe, que meu olhar errante se concentrou por uns instantes no rosto dele. Tirou o celular do bolso, está olhando para a tela. Está disfarçando, fingindo que não me notou! Que fofo, ele é tímido. Os tímidos são os melhores, eu que sei. Vou continuar aqui, fingindo interesse nessas roupas pra ver o que acontece. Que coisa ridícula essa camisa mostarda.
Minha nossa senhora protetora dos encalhados, ele está vindo pra cá. O que eu faço? Ele está olhando pra mim! Preciso de um plano, mas não consigo pensar. Ele está chegando perto. O que esse homem quer comigo, por mil Madonnas? Parou na minha frente. A boca dele está se mexendo (que lábios). Não ouço nada. Ah, o fone de ouvido! Vou tentar tirar os fones de um jeito sexy. Como se tira um fone do ouvido de um jeito sexy? Posso tirar o fone e girar o rosto na direção dele, jogando um pouco o cabelo. Não muito bruscamente, pra não parecer a Joelma do Calypso. Gestos suaves... O cara tá esperando, tira esse fone de uma vez!
- Oi, desculpa, não ouvi. Haha, é que os fones. Hehe. Er.
Pareço um retardado. Olha, tô de parabéns.
- Ah, não tem problema. – olha que simpático. Abriu um sorriso. Que dentes! – Desculpa o mal jeito, eu nem te conheço, mas posso te pedir uma coisa?
Pode me pedir o que quiser, é claro. Pode pedir em casamento agora mesmo, se quiser.
- Mal jeito nenhum, imagina. O que você precisa?
Consegui parecer meio normal agora. Menos mal.
- Você tem celular?
Uma pergunta meio idiota, claro que eu tenho celular. Mas não importa, o meu futuro marido acabou de pedir meu telefone. É a vitória, é a súbita guinada na minha vida amorosa. Chorem, invejosas, eu achei o amor da minha vida!
- Sim, o número é nove no...
- Não, eu não quero o número...
OK, isso foi inesperado.
- Como assim?
- É que o meu celular está sem sinal, e eu preciso fazer uma ligação urgente... Você pode me emprestar o seu?
Puta merda. Não era a mim que ele queria. Ótimo.
- Claro.
Sorriso amarelo. Pega o aparelho no bolso.
- Ah, muito obrigado. Eu preciso avisar minha namorada que...
Bla bla bla Whiskas sachê. Falou em namorada já não escuto mais nada. Toma aqui esse telefone, seu bosta.
Vida de merda.
Desgraçado.
Filho da puta.
Gastando os minutos do meu plano, ainda por cima. Tomara que a vaca não atenda. Tomara que caia a ligação. Tomara que nem complete a ligação. Tomara que caia a antena da operadora.
Devia ser proibido ser bonito assim e comprometido.
E chega de história, também, que agora me irritei.

13 de fevereiro de 2014

Subentendido

Disse:

- Eu te amo.

O outro entendeu:

- Eu quero casar com você amanhã, ter dezessete filhos, morar numa casa branca com varanda e janelas azuis, ter um furgão e viver juntinho com você pelo resto da minha vida. E da sua vida também. Topas?

Saiu correndo sem olhar pra trás. Nunca mais deu notícias.

É compreensível. Do rol de coisas que você pode pedir pra outra pessoa sem problema nenhum, o resto da vida dessa pessoa não consta da lista. Você não pode esperar que uma pessoa lhe dê todos os dias de que ela ainda dispõe. É um pouquinho demais.

Mas reflitamos. Aquele "eu te amo" significava tudo isso mesmo? Dizer que ama nem sempre significa que você quer morrer e ser enterrado ao lado da pessoa no cemitério. Entender é meio complicado, porque seres humanos são dificílimos, mas eu vou te contar: "Eu te amo", na gigantesca esmagadora maioria das vezes em que é proferido, significa uma outra coisa, que é a seguinte: "eu te amo".

Só isso.

Não é tão terrível né? Então.

Façam um favor.

Parem.
De.
Interpretar.

Era isso. Tenham um bom dia.
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