10 de julho de 2015

Coisas pequenas

Eu sou assim.

Eu valorizo umas coisas pequenas, que você pode não dar a mínima, mas pra mim são importantes.

Às vezes eu me emociono em finais de episódios de seriados, quando toca aquela música calma e mostra os personagens indo pra casa depois de salvar o mundo.

Tem certas músicas que nunca falham em me arrepiar.

Eu adoro olhar estrelas.

Às vezes eu rio à toa, e se você me perguntar o motivo eu vou dizer que não é nada.

Quase sempre tem um motivo, mas talvez não seja nada mesmo, só vontade de rir.

Se eu sorrir à toa, olhando pra você, é bem provável que eu te ame.

Outro dia eu vi uma caneca em que estava escrito que a felicidade é uma questão de escolha. Eu acredito tanto nisso.

Já pensou quantas vezes a gente nem vê a vida sorrindo na nossa direção? Por que não sorrir de volta?

A gente nem sempre se dá conta, mas a vida é boa.

Eu às vezes fico triste e insatisfeito, mas o fato é que é bom ser eu. E é quando as tais coisas pequenas acontecem que eu me dou conta disso.

Hoje, uma dessas coisas pequenas me fez escrever. Que é pra eu nunca esquecer: a vida é boa.

25 de novembro de 2014

Todos buscamos o mesmo





Eu sempre me achei diferente. Eu sempre achei que eu era o único interessado em amor e um pouco de romance no meio de uma selva de estranhos animais que só se entregam a emoções passageiras, cultuam corpos sarados e "vivem cada dia como se fosse o último".

Mas de uns tempos pra cá, eu andei pensando e acho que eu posso estar enganado. Ao ver que amigos tão diferentes de mim se identificam com as mesmas letras de música que eu, ao conhecer histórias de pessoas com vidas tão distintas mas que em certos aspectos se parecem tanto comigo, ao reparar que a vida anda atribulada e louca demais pra que consigamos dar algum sentido a tudo o que fazemos, eu me dou conta de que talvez, apenas talvez, estejamos todos atrás da mesma coisa. E que talvez, como ninguém sabe (muito menos eu) o caminho exato para se chegar lá, cada um tenta do seu jeito. E eu enxergo, então, que pode ser que eu nem seja tão diferente como eu imaginava.

Não que eu não goste de ser diferente, eu adoro. Eu cresci e vivi na diferença e acho que fazer diferente e ser diferente é o que me faz eu. Mas com a vida correndo num ritmo louco em que às vezes falta tempo para estar com aqueles que gosto, e com alguns dos mais próximos de mim agindo de formas inesperadas – e às vezes até decepcionantes – (porque afinal de contas, todos mudamos e nem sempre atingimos as expectativas dos nossos), a ideia de que eu posso ter algo em comum com alguém por aí, qualquer um, talvez o desconhecido com quem eu cruzo na rua ou aquela colega de trabalho com quem eu nunca troquei mais do que um bom dia, é, no mínimo, reconfortante. Saber que, no meio de todas as minhas diferenças, que eu amo e que me fazem eu, tem algo que me aproxima de todos os outros, me faz sentir mais humano.

Talvez eu não seja o único maluco interessado em ingressar na perigosa jornada de se envolver com alguém. Vai ver que todo mundo, cada um do seu jeito torto e com seus métodos incompreensíveis, esteja buscando a mesma coisa que eu. Vai ver aqueles que já estiveram comigo também queriam o mesmo, mas se equivocaram tanto quanto eu ao me escolherem. Talvez eu esteja redondamente enganado nessa minha nova concepção, mas também pode ser que certa esteja aquela linda e louca morena de Barbados quando canta:


We all want someone there to hold
We just want somebody
We all wanna be somebody's one and only
We all wanna be warm when it's cold
No one wants to be left scared and lonely

We all want the same thing
Everybody wants something, gotta want something
We all want love.*


We all want love. Composição: Ester Dean, Ernest Wilson, Steve Wyreman, Kevin Randolph (Fonte). Interpretada pela cantora Rihanna

11 de setembro de 2014

Tradição ou intolerância - Parte II


Pelo jeito a história do casamento gay no CTG ainda vai render muito pano pra manga. Já escrevi hoje de manhã sobre isso, e ainda há o que ser dito.

Agora há pouco, li o texto do David Coimbra sobre o assunto (link aqui), em que ele questiona a escolha do lugar para a realização do casamento. Ele defende que o CTG, por ser um Centro de Tradições Gaúchas, não é o lugar adequado para celebrar um casamento homossexual porque casamentos homossexuais não são uma tradição gaúcha. O David escreveu:

"Cerimônias de casamento heterossexuais são realizadas em CTGs, porque fazem parte das tais tradições deles. Casamentos homossexuais não fazem parte das tradições deles. Nem usar tênis. Nem cantar samba. Nem ser vegetariano.”

Vamos por partes.

O próprio autor deixa claro que casamentos heterossexuais são realizados no CTG. Em outras palavras: CTGs se destinam, entre outras coisas, a realizarem casamentos. Portanto, se um CTG nega a um casal homossexual a realização da cerimônia do seu casamento, justamente por se tratar de um casal homossexual, essa instituição está discriminando esse casal. Um casal hetero pode se casar lá, um casal gay não pode. O nome disso é homofobia. Ponto final. Essa discriminação pode se calcar na tradição e no costume que quiser, continua sendo discriminação.

Usar tênis ou cantar samba não se tratam de condições, já a homossexualidade é uma condição. Eu consigo escolher entre usar tênis, sapatos, sandálias, eu posso usar um tênis num pé e um sapato no outro, se eu quiser. Mas eu não tenho como escolher a minha sexualidade, eu não tenho como acordar num dia e dizer “hoje eu vou ser hetero” e no outro escolher ser gay. Assim como eu não tenho como mudar a cor da minha pele. Estabelecer como regra que eu utilize um determinado tipo de roupa para frequentar um local, devido às tradições que aquele local cultiva, não é discriminação. Estabelecer como regra que eu tenha determinada orientação sexual para que eu possa frequentar um local, é discriminação. Assim como estabelecer que eu seja branco para frequentar um local, configura racismo. O raciocínio é bem simples.

Cabe ainda salientar: o casal não escolheu se casar no CTG. O patrão do CTG é que aceitou o pedido da Juíza e ofereceu o lugar. Os casais foram convidados, havia outros casais gays na lista, apenas um aceitou.

Há quem ache descabido e desrespeitoso a juíza querer que um CTG sedie uma união gay. Sinceramente, se o CTG é um lugar que normalmente sedia casamentos, eu não vejo porque essa sugestão seria descabida, ou desrespeitosa.

Um casamento gay é, antes de qualquer coisa, um casamento. Eu sou gay e eu não dirijo um “carro gay”, eu dirijo um carro. Eu não faço “cocô gay”, eu faço cocô. O que foi proposto pela juíza, e aceito de bom grado pelo patrão do CTG (essa parte precisa ficar muito clara), foi realizar um CASAMENTO num lugar que realiza CASAMENTOS. Se a ideia fosse fazer uma rave dentro de um CTG, eu seria o primeiro a me opor, porque o lugar não é adequado nem nunca se propôs a algo do tipo. Mas não é o caso.

Pipocam acusações de que o patrão do CTG quis celebrar tal cerimônia para ganhar mídia e fazer uso político do caso. Não posso confirmar nem derrubar a tese, mas posso testemunhar que eu só fiquei sabendo do caso depois que atearam fogo ao lugar, e não meses atrás quando anunciaram os casamentos. Não fosse pelo incêndio, o caso nem teria tido tamanho alcance.

Há um ponto que foi levantado que faz sentido: os tradicionalistas estavam lá quietinhos no canto deles até a juíza procura-los. Não estavam perseguindo homossexuais, até onde se sabe, até porque tradicionalismo não tem nada a ver com sexualidade. CTG não é um lugar onde as pessoas se reúnem para fazer sexo, seja sexo gay ou hetero, é um lugar que se propõe a cultivar tradições gaúchas. A juíza é que foi lá mexer com eles. Concordo. Mas, sinceramente, já que esse tema veio à tona, será que não é hora de discutir isso?

Eu não sou adepto de tradições, mas acho que quem quer cultuá-las deve fazê-lo, não tem problema nenhum nisso. Diga-se de passagem: admiro as manifestações artísticas tradicionalistas gaúchas, particularmente as danças. Mas ao mesmo tempo me entristece saber que, ainda que eu seja gaúcho e ainda que eu aprecie aspectos da cultura e da tradição gaúcha, eu não poderia gozar dos mesmos direitos que um hetero tem dentro de um CTG, se eu quisesse, só por causa da minha orientação sexual.

Acho que, já que esse assunto entrou em pauta, cabe a nós discuti-lo. Manter tradições é uma coisa; disseminar preconceitos é outra, e não pode acontecer.

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